Moda Archive

  • Homenagem ou Apropriação Cultural? Arte nordestina aparece em nova coleção da Alexander McQueen

    Muito se fala das referências na moda. A linha é muito tênue quando pontuamos inspiração x cópia, ou homenagem x apropriação cultural. Não é de hoje que o mix cultural ao redor do mundo vem servindo de inspiração para diversos povos, os intercâmbios culturais são cada vez mais bem-vindos num mundo globalizado. Essas pautas acabam caindo nas principais rodas quando batemos os olhos e nos questionamos o lugar de pertencimento de cada obra.

    Na coleção mais recente da marca britânica, Alexander McQueen, nos deparamos com uma estampa tipicamente… nordestina! Sim, estamos falando sobre a xilogravura de cordel, característica da região nordeste, e usada para contar nossa história.

    Antes de aplaudir, precisamos entender a diferença entre homenagem e apropriação. Segundo o site Brasil Escola, “A apropriação cultural ocorre quando uma pessoa ou grupo social hegemônico em uma sociedade passa a reproduzir comportamentos, hábitos, vestuários, objetos, linguagens de grupos sociais marginalizados. Essa prática desinveste o significado sagrado ou político que esses últimos conferem aos elementos culturais, substituindo-os por outros significados, geralmente ligados ao entretenimento e à estética, promovendo o esvaziamento e colonização desses elementos sem, em contrapartida, gerar benefícios ao grupo que produziu aquela cultura”.

    Diferente da homenagem, que cita e fomenta o artista ou autor da obra, a apropriação nada mais é que o uso indevido de uma cultura simplesmente pelo capitalismo. Existem diversas formas de trazer outras culturas para o centro da conversa. Não só marcas internacionais, mas aqui no Brasil, também temos exemplos de regiões que se apropriam de certas características para vender suas criações. Por que não convidar esses pequenos artistas e impulsionar suas culturas?

    Essa não foi a primeira vez que vimos símbolos do #nordeste sendo pauta na moda internacional. Como não lembrar da sandália de couro da Prada, que encontramos facilmente nas tradicionais feiras-livres ou casas de artesãos?

    A moda é uma indústria cheia de criativos. Não precisamos ir por esses caminhos.

  • Como o mercado de luxo se mantém relevante em tempos de crise?

    Influenciadora italiana, Chiara Ferragni é nomeada embaixadora global da Bvlgari / Foto: Giulio Rustichelli/Divulgação

    O mercado de luxo sempre esteve diretamente ou indiretamente ligado aos nossos desejos de consumo. Mesmo que não tenhamos em nossos armários peças do alto escalão das marcas, é provável que um acessório ou perfume das nossas grifes favoritas, estejam presentes no dia-a-dia.

    É fato que essas marcas centenárias estão firmes e fortes durante muitos anos por um único motivo: relevância. E essa relevância não vem apenas através de um monograma impactante ou até mesmo de um designer exclusivo – estamos falando de olhar. Por mais que exista toda uma ancestralidade e história, o luxo busca pelo cheiro do novo. Como não falar sobre a inserção em massa de artistas asiáticos da nova geração nas campanhas de moda? Ou até mesmo da influenciadora italiana, Chiara Ferragni, como embaixadora global da joalheria Bvlgari?

    Tudo tem um motivo, e a Bvlgari, assim como outras marcas, enxerga oportunidades através dos novos compradores que buscam para além do objeto e fomentam o propósito. Criar esse universo precisa ser genuíno e inteiramente conectado. Não existe forma melhor para saber os novos movimentos da sociedade, do que trazer uma personagem da vida real para o debate. Mesmo que estejamos rodeados de referências das décadas passadas, nós não vivemos mais lá. É preciso acompanhar o processo.

    Outro fato importante sobre Ferragni, é que ela também faz parte de outra label de luxo, a Tod’s. Após sua nomeação no conselho administrativo da marca, a Tod’s disparou suas ações em 12%, melhor número comparado ao ano passado.

    Assim como as duas outras marcas citadas, o grupo italiano, Aeffe, também assinou contrato com Chiara e suas ações também subiram em 10%.

    Todos querem um pedaço do novo mundo. O luxo nos ensina. Esse mercado para quem está apto a entendê-lo para além da futilidade ou do valor financeiro, tem muito mais a nos ensinar do que vender uma bolsa.

    Será que sua marca está pronta para acompanhar os novos formatos de se comunicar ou está apenas atrás de engajamento supérfluo nas redes sociais?

  • Entrevista: Geová Rodrigues e a reinvenção da moda através do upcycling

    Potiguar radicado em NY, Geová Rodrigues é considerado percursor do upcycling | Foto: Cláudio Selma/Divulgação

    O nosso entrevistado vem diretamente de Barcelona, mas não aquela na Espanha, e sim, a Barcelona no interior do Rio Grande do Norte.

    Geová Rodrigues é mundialmente conhecido por sua colaboração na indústria da moda através do upcycling. A prática da reciclagem vem de gerações. Geová pontua que a sua mãe já repaginava coisas da casa, como as panelas de ágata antigas que viravam vasos de flores. Assim como as roupas dos irmãos mais velhos, trazendo a novidade para os mais novos.

    Recorda do Rio Grande do Norte com carinho, onde teve os primeiros sonhos, a primeira notícia de moda, quando ouviu falar sobre Dener Pamplona e Clodovil, onde também se conectou com a música, o teatro e a política. Relembra Barcelona como o começo, mas se considera como um “senhor do mundo”.

    Geová ganhou o mundo nos anos 80s ao tentar a vida em São Paulo. Começou como artista plástico, fazendo exposições da Conexão Urbana entre Rio de Janeiro e São Paulo.

    Sempre fomentando a reciclagem, os descartes da badalada rua Oscar Freire serviam de matéria prima para suas obras. Em uma das exposições, um empresário paulista arrematou tudo e, com esse dinheiro, Geová seguiu para Paris, em seguida foi morar nos Estados Unidos, e vive em Nova York, mas especificamente no bairro East Village, região que o acolheu de bom grado. Conhecido como berço da cena underground, o East Village serviu de ponto de partida para artistas como Madonna e Andy Warhol.

    Em 1998, Geová Rodrigues fez debut na moda diretamente da Nova York Fashion Week.

    Gisele Bündchen usando biquíni Geová Rodrigues para Haper’s Baazar America | Foto: Reprodução

    Nesses 20 anos de moda, passei a ser mais confiante, me lapidei bastante e aprendi mais técnicas para o meu trabalho. Tudo mudou, mas a essência é a mesma. Hoje, as grandes marcas falam sobre de onde a roupa é feita, por quem é feita e isso é muito bacana. Nome e endereço para os artistas e estilistas. A única coisa que eu acho até melhor agora, é que não fico naquela carência de pertencimento. Eu vou ao Brasil, Japão e Paris, e faço um pop-up. É um circo, me considero um estilista de circo. Armo minha barraca em qualquer lugar, mas tenho meu ateliê aqui no East Village. Eu não me preocupo muito com esses movimentos, só me preocupo de ficar trabalhando. Dou notícia para o mundo através da internet, mas continuo a mesma coisa, antes eu tinha 20, agora estou com 50 anos. Mas meu trabalho segue na mesma energia”, brinca o designer.

    Há mais de 20 anos em NY, Geová Rodrigues faz arte através das roupas | Foto: Tiago Chediak

    Geová procura viver a magia do momento e se reinventa através das suas criações. Seus materiais, eram descartes de grandes marcas como a Donna Karan e Calvin Klein, por exemplo.

    Há 21 anos eu fiz o meu primeiro desfile. Eu fui selecionado entre 10 estilistas europeus e americanos para fazer uma coleção inspirada no carro Focus, da Ford. Cada estilista tinha que fazer uma coleção com materiais como cintos de segurança, airbags, couro dos bancos e direção. Acabei ganhando o concurso e o carro. Essa coleção está exposta no museu da Ford em Michigan. Todos os meus trabalhos eram upcycling e eu não tinha noção disso. Nem o mundo tinha. Eu sou um dos primeiros estilistas aqui em NY a fazer isso. Então, as revistas do mundo inteiro fizeram material comigo. Upcycling é transformar o velho no novo, o resto é invenção”, completa.

    O estilista parte do princípio do slow fashion, da criação pela arte, e de não se preocupar muito com o modo acelerado que a moda corre. “A rapidez é no pensamento, numa ideia. No “fazer”, estou desacelerando. Não sei sobre o futuro da moda. Faz um ano que diariamente quando acordamos, tá tudo diferente. Vamos continuar fazendo”, afirma.

    Hoje em dia, Geová garimpa em brechós, compra peças vintages, recebe tecidos de amigos estilistas e cria a partir disso. As costumizações se fazem presentes em seu ateliê, que fica na 208 Avenue B, East Village, NY-NY. Pense em artigos Louis Vuitton, Hermès, Comme des Garços, Prada, Rick Owens e Vivienne Westwood, mas com o DNA inconfundível que só Geová Rodrigues tem.

    E o futuro? “Espero que esteja como estou agora: vivo, alegre e feliz, com a mesma energia, amigos, família e criatividade. Eu quero ser igual ao Picasso, morrer trabalhando até onde o meu coração pulsar. E o resto, é resto”, finaliza o estilista.

  • O artesanato poético da Renda Frivolitê, direto do interior do RN

    Outro dia em uma live com o estilista, Marcus Figueiredo, da Moda de Pedro, a Daniela Falcão , mencionou que o artesanato made in nordeste, se assemelha muito com a Alta Costura, na qual por 15 anos, acompanhou de perto quando pilotava a Vogue Brasil.

    E ela tinha razão: o nosso país está cheio de artistas que fazem trabalhos beirando a poesia. Uma dessas artes, é a renda Frivolitê. Dizem que sua primeira menção se deu por volta de 1707, no poema “The Royal Knotter”, de Sir Charles Sedley, que cita a Rainha Mary II “fazendo frivolité”. Conheci a renda durante minha visita a Passa e Fica/RN, no último final de semana. A técnica que passa por gerações, conta com pouquíssimas artesãs que dominam. O ponto é tão delicado que é de se impressionar que tudo seja feito manualmente apenas com auxílio da navete, uma lançadeira que auxilia na confecção dos nós.

    A história do Frivolitê está ligada diretamente ao início de Passa e Fica, sendo trazida pela esposa do primeiro prefeito da cidade, onde a mesma fomentava outras mulheres para que essa técnica não caísse no esquecimento. Hoje, uma das artistas que leva a renda Frivolitê para frente, é a Cláudia Medeiros, do @FrivoliteCM. Precisamos valorizar o que temos de melhor em nossa região. A moda se faz por pessoas que contam história, e Cláudia é uma delas. Quem se interessar, pode encontrar as peças também diretamente na @casadoartesaopfrn.