Em 2021, são contabilizados 50 anos sem Gabrielle “Coco” Chanel, estilista icônica e polêmica que cravou seu nome na história da moda, se fazendo presente entre gerações e gerações.

Para falar um pouco mais e entender esse universo criado pela Chanel, convidei a modelo, atriz e apresentadora, Laura Wie, para uma entrevista. Não teria pessoa melhor: durante 15 anos modelando pelas principais passarelas da moda, atuando na peça ‘Mademoiselle Chanel‘, de Marilia Adelaide Amaral, e contracenando com a saudosa Marilia Pêra, Laura entende o universo Chanel como ninguém.

Laura Wie e Marília Pêra | Foto: Reprodução/Instagram

Rener Oliveira: Como e quando começou sua relação com a marca?

Laura Wie: Eu me tornei modelo aos 15 anos em Porto Alegre/RS, morei em São Paulo e logo em seguida mudei para o exterior. Chegando na Europa, eu já sabia quem era a Chanel, era uma marca importante. Tinha certeza que gostaria de trabalhar.

Mas, o primeiro trabalho aconteceu só em Nova Iorque, quando desfilei em um evento da marca. Já falando do Karl Lagerfeld, meu contato não foi pela Chanel, e sim, pela marca homônima do Karl.

R.O: Há 50 anos faleceu Coco Chanel, em Paris. Fazendo uma análise, como você avalia a contribuição da marca/estilsta para as novas gerações da moda?

L.W: O que Chanel criou e popularizou é usado até hoje. Honestamente não acredito que exista mais nada para ser criado. Tudo já foi feito! Até o século XIX, havia muita coisa a ser feita, então todas as invenções foram executadas no século XX. Exemplo disso, é que chegamos no extremo da informalidade, onde não precisamos de muitos panos para se vestir.

Chanel absorveu a atmosfera da mulher moderna que precisava entrar no mercado de trabalho. Eventualmente, foi copiada pelas grandes lojas de departamento, que já existiam na época. Para ter roupas da Chanel, a pessoa precisava (e precisa) ter muito dinheiro, mas seu conceito correu o mundo ocidental. Então o que ela deixou para as novas gerações? Nada. Chanel fez tudo! A herança foi a questão visionária.

Então, o que iremos dizer para novas gerações? Não precisamos de criação super inventiva de novas peças, mas sim, um uso de tecidos sustentáveis, cuidando com o meio ambiente.

Acredito que a nova geração deva olhar para o cliente final de uma maneira muito cuidadosa, revendo a transparência na hora da execução das peças e não fomentando o trabalho escravo na moda.

Laura Wie e Karl Largefeld | Foto: Reprodução

R.O: Para quem estuda moda e suas grandes biografias, sabe que Coco Chanel teve uma história nada feliz e muito polêmica. Você acha que se naquela época tivesse Instagram, por exemplo, a estilista conseguiria ter pautado uma carreira de sucesso como pautou?

L.W: Acredito que ela teria pautado da mesma forma que pautou. Chanel era um ícone da moda. Sendo esse ícone, ela servia de exemplo e modelo das próprias criações, fazendo com que a sociedade ao redor quisesse também. Chanel fez isso dentro da sociedade francesa da época, o Instagram faz isso dentro do mundo inteiro.

Ela se daria bem com o Instagram. Te falo mais, Coco Chanel fez milhares e milhares de fotos, ela adorava, e se fotografava sempre.

A questão da infelicidade foi momentânea. Sofreu muito com o falecimento do Boy Capel, grande amor da vida dela. As pessoas ficam viúvas eventualmente e seguem com felicidade em outras coisas. Chanel tinha outros amantes, trabalhava e se divertia muito. Chanel não era infeliz, era solitária. Existe uma diferença entre isso.

R.O: Chanel libertou as mulheres de vários estigmas machistas, começando pelas roupas e mostrando independência. Será que ela sabia a importância das suas ações para o futuro da luta feminina?

L.W: Sabia totalmente das suas ações em prol do futuro das mulheres. No final do século XIX, Chanel era uma jovem que observava o que estava acontecendo e simplificou o guarda roupa das mulheres. Em 1914, ela já tinha lojas abertas, e precisou simplificar ainda mais as roupas durante a Primeira Guerra Mundial, pois as mulheres precisavam se manter sem os maridos que estavam na guerra.

Nada caiu no colo dela por acaso. Era uma marketeira natural e teve sorte, sim. Mas teve umas situações que ela não controlou, como no caso da Jackie Kennedy que estava usando o tailleur rosa, e o John Kennedy foi assassinado em Dallas. Foi uma situação triste, mas foi um marketing positivo para a marca. Na mesma década de 60, a Marilyn Monroe fotografou com o Chanel n º5. A Coco Chanel era super consciente do seu valor.

Jackie Kennedy e Marilyn Monroe | Fotos: Reprodução

R.O: O que a marca tem que as pessoas jamais encontram em outra maison?

L.W: A grife Chanel traz história, tradição, contemporaneidade e, ao mesmo tempo, estilo, beleza, feminilidade, praticidade, charme e elegância. Vestir Chanel é trazer consigo um pouquinho da vibração daquela mulher que respirava autonomia, força, determinação e era uma visionária, se situando à frente de seu tempo.

R.O: Impossível não pontuar sua participação na peça ‘Mademoiselle Chanel’, ao lado da incrível Marília Pêra. Como surgiu o convite e qual a sensação de estar em um palco contando essa história famosamente mundial?

L.W: O convite para trabalhar com Marília Pêra foi incrível. Eu quase não aceitei, pois não era atriz. Mas a coisa começou a crescer e eu vi que era um projeto diferenciado. Não era fácil, pois eu tinha crianças pequenas na época além do trabalho na televisão.

Conheci Marília entrevistando sobre um novo projeto que ela lançaria na época. Ela gostou do meu trabalho como entrevistadora e, a partir daí, quando surgiu o roteiro da peça de Chanel, me indicou para o diretor, falando que gostaria de fazer a peça comigo. Fiz o teste com centenas de mulheres. Como eu já era modelo há muito tempo, conhecia as passarelas e sabia descer a réplica da escada da maison Chanel em Paris, na Rue Cambon.

Eu também sabia muito da história da Chanel, não tudo. Aprendemos muita coisa durante o estudo da peça. Peguei o trabalho, e atuei ao lado da Marília e da Elen Londero durante três anos. Foi uma grande honra, éramos bem próximas. Não só como atrizes, mas também como amigas. Inclusive, estava no contrato da Marília que ela não faria a peça se não fosse conosco, eu e Elen, que fizemos as duas modelos. Essa ligação com a Marília era bem forte.

Mas, que bom que eu aceitei. Além de toda a experiência, foi um trabalho belíssimo. Nos primeiros anos em São Paulo, e depois em outras localizações. Tive muito contato com Karl Lagerfeld. Para Marília, não importava tanto quem era o Karl, mas eu conhecia o Karl e era a modelo do grupo. O entendimento de uma atriz para uma modelo é muito diferente, se falando de moda.

Uma tristeza enorme nenhum dos dois estar entre nós. Nem Marília, nem Karl. Eles deixaram um legado importante com esse projeto.

A peça teve estreia em 2004, com texto de Maria Adelaide Amaral, direção, cenografia, iluminação e trilha sonora de Jorge Takla, Mademoiselle Chanel teve seus figurinos confeccionados em Paris pela própria Maison Chanel.

R.O: Para conhecer melhor a estilista, quais suas indicações?

L.W: Acho que o mais bacana atualmente são os vídeos que a própria Chanel tem divulgado. Antigamente, era apenas no site, mas hoje estão no Instagram. São vídeos curtos que trabalham um tema por vez, falando da Coco Chanel. Sabe-se que a Chanel mentia muito, isso não é segredo. Porém, como os conteúdos são veiculados pela própria marca, podemos acreditar na veracidade.

Um dos grandes mistérios que cercam o universo Chanel, por exemplo, é sua participação no regime nazista como espiã. Em um estudo recente, descobri sim, a confirmação no nazismo. Chanel morreu com quase noventa anos. São muitas histórias.

Para saber mais e ficar por dentro dos projetos da Laura Wie, indico seguir já o Instagram @Laura_Wie. Obrigado, Laura!