Semana de Alta Costura Spring 2021 promove clima otimista e novos debates sobre o futuro da moda e consumo

Os desfiles de Alta Costura aconteceram entre os dias 25 e 28 de janeiro com presença de marcas consagradas e novos talentos

Entre os dias 25 e 28 de janeiro, acontecem a semana de Alta Costura em Paris. Essa é aquela semana de moda que serve de inspiração e que dita as próximas tendências que, posteriormente, veremos nas araras das lojas. Acontecendo tudo digitalmente em decorrência da pandemia, é na Alta Costura que os estilistas exploram toda sua criatividade e referências, promovendo uma experiência que apaixona pelo olhar.

SCHIAPARELLI:

Exemplo disso, é a marca Schiaparelli , comandada pelo designer Daniel Roseberry. Sempre imponente desde a sua criadora, Schiaparelli nos convidou para uma nova percepção sobre o corpo humano e suas diversas formas.

A apresentação foi totalmente artística, o que pode causar estranheza em algumas pessoas. Roseberry deixou claro que sente um certo incômodo na Alta Costura, onde sempre introduzem na narrativa, mulheres hiperfemininas e delicadas. “Se você quer parecer um cupcake, pode ir para outro lugar”, afirmou.

Schiaparelli nos faz pensar através do surrealismo, se toda essa ode ao corpo perfeito, faz realmente sentido usar roupas – ou bastaria simplesmente exibir músculos e shapes?

DIOR:

O misticismo sempre esteve muito presente na vida de Christian Dior. A diretora criativa da casa, Maria Grazia Chiuri, resolveu preservar essas crenças no misticismo, e trouxe o Tarô como ponto de partida para a coleção Alta Costura Dior.

A apresentação foi através de um vídeo com pouco mais de 15 minutos, dirigido por Matteo Garrone, que pensou numa dinâmica de gêneros na hora da execução do projeto. É um show à parte. Tudo começa quando uma moça está em um castelo em busca de saber quem é ela mesma, a autodescoberta. É quando a taróloga pede para a mesma puxar uma carta, e vem a Alta Sacerdotisa, que representa a necessidade por autoconhecimento, sabedoria e paciência – tudo que precisamos nos dias atuais. Durante o curta, outros elementos do Tarô são personificados, trazendo elementos da personagem para a vida.

Diz que Dior procurou o tarô em um momento de angústia, quando sua irmã, Catherine Dior, desapareceu durante a Segunda Guerra Mundial. O misticismo e nossas crenças tem disso: buscar um conforto ou até mesmo sinais para aquilo que foge da nossa compreensão.

Vale salientar a presença de peças icônicas da marca, tal qual uma releitura do New Look, criado por Dior, e que o colocou no pódio das grandes marcas.

IRIS VAN HERPEN:

A Iris van Herpen é conhecida no mundo da moda por suas coleções exóticas e futuristas. Parece que estamos saindo de um filme sci-fi, e que as roupas são uma extensão da natureza no corpo das personagens. Não é para menos: os cogumelos (!!!) e suas raízes foram inspirações nessa coleção.

A designer holandesa nos convida a olhar para o universo invisível que nos rodeia, além de acreditar no poder da regeneração e na capacidade de mudança.

Ponto forte para os tecidos em plástico reciclado em parceria com a Parley for The Oceans – rede global que trabalha na conscientização e preservação dos oceanos.

Fica aqui o exemplo de uma direção criativa bem executada. A tecnologia somada às técnicas artesanais, são o ponto forte para a coleção.

GIAMBATTISTA VALLI:

Quando se tem uma marca irreverente, não precisamos de muitas dicas para saber quem é o autor da peça. Nesse caso, Giambattista Valli dispensa apresentações quando pensamos em quilômetros de tafetás e tules.

Para a Alta Costura, o estilista nos levou para pontos turísticos do mundo sem precisar sair de casa. Acompanhadas de um bailarino profissional, as modelos desfilaram poeticamente a bordo de vestidos volumosos, babados, capas, laços e adereços que nos levam à máxima da feminilidade.

Giamba nos impressiona com a delicadeza no olhar. Chega a ser um suspiro entre tantas coisas imprudentes que acontecem nos últimos tempos. A moda é isso: nos levar para lugares inimagináveis e utópicos, na esperança de uma nova era.

CHANEL:

Chanel deu o play nas apresentações do segundo dia na Alta Costura. Inicialmente, a gente observa um desfile mais comercial, porém, é preciso voltar o olhar para os detalhes. Alta Costura é sobre isso: técnica, trabalho manual e referências.

Os shows da Chanel são sempre uma visita ao passado da sua criadora, Mademoiselle Chanel. Peças típicas como o tailleur de tweed, o sapato bicolor Mary-Jane, o flerte entre o closet masculino e a paixão por cavalos.

Após o falecimento de Karl Lagerfeld, quem assumiu a direção criativa da marca foi a estilista Virginie Viard, que transformou o Grand Palais em uma festa intimista no campo. O desejo de todos nós em tempos de pandemia.

VALENTINO:

Antes mesmo de falar sobre a coleção em si, é preciso pontuar que Pier Paolo Piccioli, diretor criativo da Valentino, ressaltou todos os trabalhadores que desenvolveram as roupas em cada entrada de modelo. Isso levanta o debate sobre o “quem faz minhas roupas?”, que a gente sempre fala por aqui.

O desfile da Valentino trouxe mil e uma textura para a passarela. O que chama atenção, é o apelo comercial para uma Alta Costura. Daria facilmente para qualquer um de nós sair com as peças do desfile pronto para os compromissos do dia – ou da noite.

O minimalismo de cortes perfeitos e cores sóbrias faz contraponto com os acessórios metalizados, com aquele ar mais rock n roll. Principalmente para as plataformas estratosféricas e as maxi botas, que já são a cara do street style em um mundo sem isolamento social.

Voltamos a pensar mais uma vez em um guarda-roupa mais inteligente, com peças atemporais e confortáveis. O questionamento é: as marcas estão pensando em um novo público para a haute couture? Fiquemos de olho!

ALEXANDRE VAUTHIER:

Alexandre Valthier just wanna have fun! E quem não quer? Inspirada no glam dos anos 80/90, o estilista apresentou uma coleção cheia de brilhos, modelagens amplas e geométricas, recortes, estruturas e fendas. Tudo no melhor estilo Studio 54 em uma volta no tempo, por noites de baladas sem fim.

O couro se une com a alfaiataria e looks boyish, embalados pelas fendas certeiras, dando aquele ar sexy que só a marca tem.

Realmente, essa semana de Alta Costura vem sendo diferente em vários sentidos. O comercial é gritante, e a sede por dias livres se faz protagonista.

RONALD VAN DER KEMP:

O questionamento de Ronald van der Kemp é se o mundo enlouqueceu. A ideia do real e o irreal transcende uma das únicas marcas upycilging do calendário de Alta Costura. Ronald usa a moda reciclável para suas criações, e essa não seria diferente.

O designer também sofreu com o lockdown e a falta de material para o seu trabalho, mas a escassez não foi empecilho para desenvolver uma coleção inspiradora e com propósito.

AZ FACTORY:

Ex- diretor criativo da histórica Lanvin, Alber Elbaz embarcou em um novo projeto que, quebra de vez os paradigmas da tradicional Alta Costura. Albert se uniu ao conglomerado de luxo, Richemont, para promover uma experiência única, voltada para as mulheres de hoje em dia. Nasce assim, a AZ Factory.

A venda dessas peças será exclusivamente online, através do Net-A-Porter e Farfetch. Isso só prova o poder do e-commerce, fazendo com que a gente pense ainda mais no digital como fonte indispensável na hora do consumo.

Sonhei durante anos com uma reconfiguração da moda… E esse sonho torna-se mais relevante hoje, em um momento em que as pessoas não podem estar juntas. O mundo está mudando muito rápido e todos estamos nos adaptando a novos comportamentos e emoções. Esta fábrica de sonhos se concentra em encontrar soluções reais para a mulher atual. É um projeto focado no produto e na comunicação, e estou muito entusiasmado por poder apresentá-lo ao mundo de uma forma fabulosa e divertida em conjunto com dois dos líderes mundiais do luxo digital, a Farfetch e a Net-A-Porter“, afirma o designer.

A coleção se conecta com símbolos atuais e mais street style impossível. Elbaz ousou ao inserir o sportwear na haute couture, dando status de luxo máximo para o segmento. Bem pensado, como não lembrar das coleções de sucesso da Rihanna com a Puma e da Beyoncé com a Adidas?

Ponto forte para as modelos plus size e da terceira idade. Pouco se fala sobre essa fatia do mercado consumidor. O preconceito precisa ser quebrado e a moda necessita ser um lugar divertido para todos – independente de idade, cor ou gênero. Vamos ficar de olho nos próximos passos da marca.

GIORGIO ARMANI PRIVÉ:

Vamos de Giorgio Armani Privé? Armani comunicou que se inspirou na Milão “nua”. Sem aglomerações nas ruas italianas, o estilista transformou o silêncio em poesia.

Os tempos em que vivemos nos obrigam a ficar em casa e ter uma vida social muito limitada, mas a busca pela beleza é eterna”, afirmou.
É possível perceber essas nuances desde as cores mais sólidas, remetendo as construções arquitetônicas, as texturas e o ar melancólico dos momentos passados pela cidade. Em seguida, cores fortes e vestidos mais fluidos aparecem, dignos de red carpets.

Mesmo com notas de saudade, Armani tem confiança em dias melhores e acredita no recomeço. Todos nós, sr. Armani!

FENDI:

O clima familiar e afetivo tomou de conta da passarela Fendi na estreia de Kim Jones na marca. O estilista traz referências das suas observações e lembranças das voltas para casa no ônibus escolar, enquanto analisava o antigo retiro de Sussex, do século XVI, em Bloomsbury, que recebia os boêmios da época.

Além da melancolia, a Fendi trouxe inspirações nas obras da escritora britânica, Virginia Woolf, que foi mesclada com referências dos arquivos da marca, ressignificando peças clássicas. Parece que o saudosismo por épocas livres que vivemos, foi ponto forte na semana de Alta Costura 2021.

Além disso, a fluidez de gênero é explorada, e abre o questionamento se existe realmente diferença entre feminino e masculino – ou simplesmente vestimos aquilo que nos representa?

Impossível não pontuar a presença de nomes icónicos na passarela, como a entrada de Demi Moore, seguido de rasantes de Naomi Campbell, Kate Moss, Bella Hadid, Cara Delevingne, Christy Turlington entre outros.

Arquitetura, estampas sóbrias, transparência, alfaiataria e bordados, foram destaques na estreia de Jonas na maison italiana.

VIKTOR&ROLF:

Viktor&Rolf nos convidam para uma “balada da Alta Costura”, como exemplificam a temática da coleção. Em posts anteriores, já vinha falando sobre esse desejo de liberdade e clamor por uma big party ou reuniões mais intimistas.

A moda representa os principais aspectos do nosso cotidiano, e o ato de se vestir, materializa o nosso estado de espírito. A dupla de estilistas focou em um momento de alegria e diversão para essa coleção. As roupas são upcycling, colocando em pauta a reutilização na moda.

CHARLES DE VILMORIN:

Os novos talentos da moda pensam em uma cultura universal de vestimenta. Esse é o exemplo que vemos no Charles de Vilmorin, a aposta fashion da geração.

Charles pensou em uma coleção psicodélica, com desenhos feito a mão por ele mesmo, mangas bufantes, camadas e, tudo isso, sem gênero. Why not?

“Para mim, alta-costura não é apenas luxo – é fantasia e eu quero mostrar algo fora do comum”, afirma o estilista.

RAHUL MISHRA:

Rahul Mishra foi mais uma marca que seguiu na linha do otimismo que vimos em outras apresentações, e faz referência a natureza em todo o seu esplendor, nos tocante a recomeçar depois de períodos difíceis. Podemos entender a metáfora por trás das fotos nas rochas estampadas por modelos com looks coloridos. 

Um fato curioso: assim como Iris van Herpen, Mishra buscou referência nos cogumelos e suas peculiaridades para seguir formando a coleção. Ponto forte para os tecidos biodegradáveis utilizados pelo estilista. 

SR STUDIO. LA. CA.:

O clima fantasmagórico e underground tomou conta do desfile SR Studio. LA. CA. Com referências da América do presente e do passado, a marca apresentou “espíritos” desfilando em um lugar abandonado com looks totalmente urbanos e dignos de qualquer produção streetwear.

ÁREA:

A diferença para nós é algo positivo”. Com essa frase, os designers da Área fecham a semana de Alta Costura com uma apresentação com o DNA showgirl da marca, cheio de brilhos e cristais, que foram mesclados à alfaiataria.

Detalhe para os casting estrelado por modelos que fogem aos padrões da moda. Nada mais high fashion que um desfile inclusivo para todos os tipos de pessoas. Esse é um novo horizonte para a Alta Costura. Alô, new money! 

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